sexta-feira, 8 de junho de 2012

SEGUNDA MENSAGEM ÁS RÁDIOS COMUNITÁRIAS


Trabalhar com rádios comunitárias em São Paulo é coisa para heróis e heroínas.

Segundo a Lei de Telecomunicações, as “comunitárias oficiais” são aquelas que possuem o “transmissor homologado” (ou aprovado) pela Agência nacional de telecomunicações (Anatel).

Esse transmissor possui uma potência de 25 Watts, e já é adquirido com a posição da “futura emissora” no Dial já pré - fixada.
Dentro destas condições pré - estabelecidas e impostas pela “lei”, quem quiser ter uma rádio comunitária deve se submeter a essa exigência, e trabalhar somente em alguns quarteirões ou (“por esporte”), hobby etc., caso contrário, (se quiser trabalhar sério) será declarado ladrão, bandido, criminoso, fora-da-lei, “derrubador de aviões”, terroristas, marginal, etc., e ainda será preso, perseguido, ameaçado, difamado, caluniado, roubado, extorquido...

Ao comprar o transmissor homologado (ou seja: aprovado por lei pelas autoridades federais), o comprador, ou a compradora recebe toda a documentação legal da futura rádio comunitária, autorizando o seu funcionamento “dentro da lei”.
É evidente que nas condições (da lei), oferecidas pelo governo federal, os futuros proprietários de rádios, só poderão utilizá-las para “fins não-comerciais”, para satisfação de vaidades pessoais, hobby, a serviço de pequenos projetos socioculturais em comunidades, também pequenas.
Essa é a “rádio comunitária ideal” na ótica do governo federal e das grandes emissoras de rádio e televisão no Brasil.
Para nós: empresários, artistas, radialistas, trabalhadores e ouvintes das rádios comunitárias por todo o Brasil, a nossa rádio comunitária ideal, é total, e estruturalmente diferente; pois são dois tipos de emissoras:
Para nós, que idealizamos a liberdade de expressão, a democracia das telecomunicações e o direito de manifestação cultural, essas “rádios comunitárias” do governo federal são insuficientes para os nossos propósitos educativos, econômicos, sociais e culturais.
Principalmente ao forró; a música caipira, ao carimbó, etc.
Para entreter a população, ou para informá-la, daria maior resultado instalar serviços de auto-falantes em bairros ou comunidades, do que, usar uma rádio com apenas 25 Watts de potência, com duvidosa qualidade de som e recepção.

Não há a mínima possibilidade de arrecadar meios financeiros para pagar os custos da emissora.
Há custos como, aluguel, água, luz, telefone, gás, dispensa, funcionários, móveis, equipamentos eletrônicos, CDs, manutenção, carro, gasolina, estúdio de gravação, e muitas outras coisas.

Trabalhando só com o transmissor homologado em 25 Watts, não há a mínima condição de divulgar um artista e executar suas canções para um grande número de pessoas, (e para bairros mais distantes), dentro da própria cidade onde está instalada a rádio homologada.

Com a proibição de trabalharmos “comercialmente” como as “oficiais”, e sem uma amplitude de pelo menos 300 Watts de alcance, como iremos pagar as nossas contas, ou ter benefícios com a rádio?

Para quê serviria uma rádio que daria despesas?

Não vamos fazer rodeios:
Para nós, profissionais, diretores, trabalhadores e artistas das emissoras comunitárias alternativas é impossível fazer um trabalho sério, profissional, ideológico, cultural, com ativismo social, apenas com um transmissor de 25 Watts de potência, conforme o modelo homologado oferecido pela Anatel.
A rádio comunitária ideal, para nós, é a nossa atual emissora alternativa de até 300 Watts de potência.

 Esse é o verdadeiro pensamento de todos nós.
É também o pensamento de milhões de simpatizantes por todo o Brasil entre políticos, autoridades policiais, empresários, comerciantes, ouvintes, artistas, patrocinadores, religiosos, líderes sindicais etc., que de alguma forma estão envolvidos com as nossas “emissoras não homologadas”.

A perseguição das “rádios oficiais” e do governo federal contra as rádios comunitárias nunca teve o apoio do povo, que sente na rádio comunitária, um canal de voz e uma poderosa aliada.
Associações de bairro, movimentos culturais, comunidades de mangue, de pescadores, quilombolas, ribeirinhas, rurais, tribos indígenas, comunidades de áreas livres, sem-teto, sem-terra, e toda a população esquecida pelas autoridades, pelas leis, e pelas grandes emissoras de rádio e TV.

Não há um só parágrafo, não há um só artigo da lei geral de telecomunicações que seja justo, que seja democrático, e que tenha sido aprovado pelo povo.

A lei, que nos é oferecida (ou imposta) só serve para quem não precisa da rádio comunitária, ou para defender o interesse das grandes emissoras ou para preservar seus oligopólios, onde manipula a informação, “arianizam” a cultura e descriminam as minorias.

Essas corporações detêm todo poder cultural, político e intelectual no país, manipulando as massas e a informação.

Elas representam as altas camadas da sociedade e da política, que não querem ver as rádios comunitárias competindo com elas, ou questionando seus representados, como os governantes, os políticos, e o próprio sistema político e cultural no Brasil.

Há um sistema estabelecido que eles não querem que seja mudado ou questionado.
Seja no meio cultural, seja no meio musical, seja no meio do futebol, seja no meio político, seja no meio espiritual,seja no meio social, seja no meio econômico, ou, seja no meio da comunicação.

 Eles travam contra nós uma verdadeira cruzada de perseguição e difamação.

Perseguem, não só a nós, mas também a milhões de ouvintes, artistas e simpatizantes da nossa luta por todo o Brasil.

Eis uma luta desigual:
De um lado, o governo federal, a Anatel, a polícia, as grandes emissoras de rádio e TV, com seus jornalistas, radialistas e repórteres, todos unidos contra nós, e amparados pela lei.
O Lado mais forte.

Do outro lado estamos nós: O lado mais fraco.
Os pobres, o povo das periferias, os pequenos artistas, as pequenas rádios comunitárias, os locutores, os radialistas alternativos e milhões de ouvintes.
Ainda somos os “fracos”.
Porque ainda estamos desunidos, desorganizados e desconscientizados.

A nossa sociedade não precisa apenas de heróis, ídolos e líderes; antes precisamos de união, companheirismo, solidariedade, e trabalho entre todos nós.

Nós tentamos trabalhar. Porém, sempre que uma de nossas emissoras começa a criar raízes e se integrar com a sociedade a seu redor, a polícia federal nos localiza, invade as nossas emissoras, apreende os nossos equipamentos, leva os nossos CDs e computadores, nos prende, e tudo volta de novo a “estaca zero”.

E assim, mais uma vez, não por desafio a lei, mas por questão de sobrevivência, cultural, econômica e comercial, os nossos trabalhadores, abrem novas rádios, por todo o Brasil, com a mesma rapidez com que as polícias civis e federais as fecham.
Esse ciclo durará até que a lei seja revista e justa.

A repressão do governo federal junto ás rádios comunitárias é algo brutal e truculento, e o choque de posições de observância da lei por parte do governo federal, contra as reivindicações de direitos por parte de todos nós: os alternativistas, é sempre inevitável.


Sempre que alguém idealiza, ou monta por conta própria, a sua rádio comunitária, sem o tal “transmissor homologado”, a sua rádio sempre estará fadada a ser fechada, ter seus equipamentos e objetos apreendidos violentamente, e seu proprietário, ou seus locutores e funcionários detidos, processados e até humilhados pela polícia federal e polícia civil.

Todos os anos milhares de rádios comunitárias são fechadas de modo violento por todo o Brasil.
São rádios de roqueiros, regueiros, sertanejos, evangélicos, católicos, neo-pentecostais gospels, sambistas, rappers, políticos, mistas e etc., só não fecham as rádios “deles”.
Todas as sociedades políticas, sociais, culturais e religiosas no Brasil, possuem, ou já possuíram algum vínculo direto ou indireto com alguma rádio do tipo alternativa ou “não homologada”.

A grande maioria dessas emissoras vai ao ar, ocultando suas identidades, seus endereços, e os nomes de seus proprietários.

Emissoras sérias, e totalmente ativas dentro da região onde estão instaladas, auxiliando o povo e promovendo a arte, a cultura, e gerando empregos, informação e assistência sociocultural.
Onde todos trabalham sob a permanente tensão de estar sendo vigiados pelas grandes emissoras e pela polícia.
De estar prestes a perder o emprego, a perder a sua própria rádio, e até a sua “credibilidade”.

Essa é a nossa sina:
Trabalhar por anos e anos, sendo sempre perseguidos, e sempre perdendo tudo.
Tendo sempre que recomeçar das cinzas, novamente e sempre.
Como fenixes radiofônicos.

Nós somos as eternas vítimas dos maiores preconceito, das maiores perseguições, e vítimas permanentes de males psicológicos como depressão, “estresse diário”, além de constantes prejuízos financeiros, morais e culturais.
E ainda somos fixados e chamados de bandidos

 Somos almadiçoados pela mídia e pelo governo federal.
Perseguidos e rejeitados por aqueles que deveriam nos apoiar, mas preferem o caminho inverso: transformou-nos em “bandidos”, “terroristas”, fora-da-lei, obrigando-nos a viver (ou trabalhar) na clandestinidade como “monstros sociais” e “anarquistas do poder”. “Derrubadores de aviões”.
Essa atitude covarde, não ficará sem uma resposta á altura, e hoje esse manifesto mostra, não só a injustiça cometida contra milhões de trabalhadores, artistas e ouvintes de rádios alternativas, mas revela para o Brasil e para o mundo a verdadeira face, que se esconde por trás da perseguição ás emissoras alternativas.

A questão não envolve somente a lei, mas também o que se oculta por trás da lei: o mecanismo de manutenção da pobreza, da falta de informação, da deformação moral e da cidadania, e finalmente, o mecanismo que impede a ascensão social, cultural e econômica do povo carente.

A “sociedade ideal” que as grandes emissoras de rádio e televisão defendem e procuram implantar no Brasil, é uma sociedade arianizada/ futebolizada, européia, nórdica, racista, e discriminatória aos negros, indígenas e aos mestiços, e não tem absolutamente nada a ver com a nossa “sociedade real” de nordestinos, afro-brasileiros, caipiras, amazonenses, etc.

As rádios comunitárias estão a serviço das sociedades folclóricas e tribalistas, como a cultura nordestina/conterrânea (do forró), ou a cultura afro-brasileira (do samba) por isso ela é perseguida, e nós somos cada vez mais substituídos e afastados do “sistema”. Somos perseguidos e combatidos sem nenhuma clemência. Sem nenhum respeito ou consideração.


Dentro do “plano anti-comunitárias” das grandes emissoras nós somos “os inimigos” e não devemos competir com elas.
Elas pressionam o governo para que nos reprimam e nos impeçam de trabalhar.
Assim, somos forçados a atuar de forma reprimida e vigiada.

Todo o ativismo sociocultural das emissoras, dos radialistas e intelectuais que nelas atuam, ficam “podados”.
Sob a vigilância truculenta da repressão policial.

Toda a arte, toda manifestação cultural, todos os ideais ficam violentamente reprimidos e censurados pela “lei geral das telecomunicações”.

Nós estamos sendo obrigados a trabalhar somente dentro dos “guetos socioculturais” ao redor das “rádios homologadas”, para que outras regiões e outras populações, não ouçam nossas rádios, nossas canções, nossos radialistas, os nossos artistas, e não se informe dos nossos objetivos comuns.
 ..E TUDO PARA NOS CALAR E OPRIMIR CADA VEZ MAIS, O POVO ESQUECIDO E EXCLUÍDOS DAS PERIFERIAS DAS GRANDES E PEQUENAS CIDADES DO BRASIL, QUE TANTO PRECISA DE RADIOS COMUNITÁRIAS..

LUCIO-X

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